Domingo, Agosto 29, 2010


Mudam-se os tempos

- Pai, eu fico. Gosto muito de vocês mas fico. Não estou para me ir enterrar naquela pasmaceira. Aquilo, embora tenha nascido lá, já não me diz nada.
Estavam a almoçar. O Manuel Casaca, a mulher, a filha. Num domingo de Maio.
O Manuel Casaca fitou os olhos garços e límpidos da filha. Uma limpidez entretecida de determinação e resoluções feitas. Baixou os olhos para o prato, as batatas engroladas na garganta.
- Tu é que sabes, filha, tu é que sabes da tua vida. Eu e a tua mãe só queremos o teu bem. - A violência das palavras gastara-se em meses de discussões virulentas. -Tu e que sabes, filha.
` - Eu e o Maurice vamos casar. Tentem compreender, por favor. Por favor. -
Minutos de silêncio. O sol a entrar pela janela.
- Vou dar uma volta.
- Onde vais, Manel? — alarmou-se a mulher, chorosa.
- Descansa que não me vou enforcar.
Na rua, sentia-se desnorteado, desprogra¬mado. Os quinze anos de Canadá repartira-os entre o trabalho e a St-Dominique. Entremeados de viagens a Portugal de cinco em cinco anos, para matar saudades, para preparar o amanhã.
Foi dar ao jardim. Um jardim a cobrir-se vertiginosamente de sol e verde. Sentou-se num banco. Um esquilo desceu duma árvore e aproximou-se em avanços e arrecuos inquietos. As perguntas-acusações sem resposta da aldeia em peso não cessavam de esmurrar o homem:
“E a tua filha? O quê? Deixaste-a naquelas terras? Casada com um estrangeiro? E tu deixaste? Que raio de homem és tu? Não te sais ao teu pai, não, com esse ela vinha nem que fosse morta. Andaste tantos anos por lá para quê? Todas as terras que compraste vão ser para os lobos. Mais valia teres ficado por lá, desgraçado.”
- Podem-me dizer o que devo fazer? Hei-de morrer nestas terras, enterrado num buraco de gelo?
O esquilo marinhou árvore acima, amedrontado corn os gritos do homem. Lá no alto, ficou imóbil, a espiar.
O Luis Rita, que por essa altura passava rente ao jardim, abanou a cabeça. No cruzamento da Laval com a Pine, tropeçou num grupo de conterrâneos agachados ao redor duma telefonia.
- Sabem que está ali no jardim, a falar sozinho? O Manuel Transmontano. Sempre disse que aquele gajo acabava zaruca.
- Cala-te, cabrão. Deixa-nos ouvir o relato.
*
Recém-chegado a Montreal, foi com este texto que me estreei como colaborador do jornal A Voz de Portugal. Já lá vão trinta anos. Três décadas que assistiram à maior revolução tecnológica da história da humanidade.
Esta manhã, ao encontrar casualmente o retalho de jornal numa pasta amarelecida pelos anos e ao relê-lo, com um sorriso algo saudosista nos lábios, apercebi-me como o mundo mudara. Como a comunidade portuguesa mudara.
Agora, o sonho dos encanecidos pioneiros da emigração portuguesa para estas terras já não é levar a família de volta ao torrão natal. Perdidas as ilusões, deixaram de ser exigentes e já se alegram, e até mesmo soltam uma lágrima enternecida rugas abaixo, se os netos ainda continuam a falar sem grandes atropelos a língua portuguesa e a gostar de bifanas, caldo verde e folclore. As rasteiras vida ensinou-os a contentarem-se com pouco e a aceitar o porvir com resignação.
O fervor pelo futebol talvez ainda esteja mais aceso do que antigamente. Com a abismal diferença de que agora, na maré cheia da revolução das comunicações, as telefonias de ondas curtas já são autênticas peças de museu e os jogos podem ser seguidos religiosamente nos enormes e luminosos ecrãs de televisão que transmitem as imagens e o som com uma fidelidade sem mácula. Até mesmo nas manifestações de júbilo por ocasião dos ansiados golos ou perante uma jogada mais virtuosa, no salutar confronto clubista da algazarra dos cafés, o portuguesíssimo e abrangente cabrão é cada vez mais amiúde ultrapassado por um “pure laine” e sonoro tabarnac, a revelar uma evidente mestiçagem de línguas e culturas que nada nem ninguém conseguirá deter.
Rendo-me à evidência. Da minha envelhecida história pouco resta de pé. Só mesmo os esquilos é que ainda continuam a marinhar árvores acima donde ficam, pasmados, a observar a incompreensível correria dos homens pelos caminhos dum futuro cada vez mais improvável mas sempre fascinante.

Segunda-feira, Dezembro 28, 2009

Noite de consoada


A St-Laurent estava quase deserta. Não fossem os enfezados enfeites luminosos, a pingar das árvores despidas e famélicas, que pintalgavam os restos de neve arremeçados contra os bordos dos passeios, nem se acreditaria que era a noite de consoada.
O homem, ainda novo, quarenta anos mal feitos, caminhava com passada mole, sem destino, num remar cansado contra a noite infindável. Vergavam-no o peso das recordações que lhe tinham cravado a dentuça no pescoço e teimavam, raivosas, em não lhe dar tréguas.
As mais antigas, nebulosas mas ainda assim felizes, eram fragmentos cada vez mais esboroados das consoadas da infância em Miranda: a crepitante fogueira acesa pelo entusiasmo da rapaziada, carradas e carradas de lenha queimadas num imenso braseiro que alimentavam noite fora as labaredas esfomeadas de chegar ao céu; a missa do galo, na Sé enregelada, com a ladainha do padre a ressoar pelas imensas naves , tão interminável que até impacientava o seráfico Menino Jesus da Cartolinha como sempre regaladamente instalado na sua guarida; o silente regresso a casa, a paz pousada como pombas brancas nos beirais dos telhados, os passos a ressoar nas pedras lisas e escorregadias da calçada medieval.
Nos primeiros anos em Montreal, lar de imigrantes aturdidos em busca de sentido para a nova vida, eram noites tristes, cheias de saudades mal saradas, de lágrimas furtivas da mãe sufocadas pelos cantos da casa, disfarçadas por sorrisos apagados.
Já homem feito, numa fuga constante às fragilidades coladas para sempre à pele, as noites de consoadas eram passadas, nas mais diversas e inesperadas circunstâncias, ao sabor das suas relações amorosas frívolas, inebriantes, sem cadeias. Quando as coisas corriam para o torto, havia sempre os braços abertos da casa dos pais, as eternas bolas mirandesas, o calor duma alegria mais resignada e o vozeirão sadio do pai repleto de recordações. Era a elas que se agarravam todos com a fúria de náufragos num mar estranho a que nunca pertenceram por inteiro.
Estava, agora mesmo, a ouvir a voz do pai: que rapaz este, recordas-te mulher?, não havia presente de Natal que lhe servisse. Só tinha olhos para os canivetes mirandeses, até lhe saltavam os olhos da cara quando via um nas mãos de alguém. Ainda mal se sustinha nas pernas, parecia um cachorrito a saltar atrás de quem lhe mostrasse o dianho dum canivete. - As palavras rudes ensopavam-se de lágrimas ternurentas. - Nunca vi uma coisa assim, o garoto parecia enbruxado.Como é que se podia dar um brinquedo desses a uma criança! Só se fôssemos doidos..
A mãe, sombra diáfana, sorria, passava-lhe a mão protectora pelos cabelos e, sem que eles se apercebessem, ia-se despedindo aos poucos do filho, do marido, soltas, desde há muito, as amarras ao cais da vida.
O falecimento dos pais quebrara a derradeira ligação umbilical aos prados floridos da infância. O fascínio dos canivetes fora para sempre, assim o acreditara, vencido pelo do mistério das mulheres. Mas com o correr da vida, principalmente nesta época do ano, face a face com as recordações assanhadas, cada vez se apercebia com mais crueza da fraqueza das raízes que o agarravam ao chão que pisava, da sua solidão. Uma solidão imensa, dolorosa, que lhe perfurava as entranhas e abria sulcos profundos de tristeza que nada, nem mesmo as mais envolventes aventuras amorosas, podia sarar.

Quando chegou ao Parc du Portugal, as pernas trémulas recusaram continuar a caminhada sem norte, forçaram-no a sentar-se num banco mesmo à beira do fontanário donde o leão de pedra da bica, seca nesta época do ano, o observava meio intrigado. Mais à frente, o padrão dos descobrimentos, esguio e esbranquiçado, na sua frieza pétrea, era sentinela vigilante, indiferente à sua presença. No telhado do coreto, os pombos encolhiam-se uns contra os outros para se protegerem do frio cortante e também não lhe prestavam atenção. Só o manto de neve que cobria a calçada do parque é que rastejava ao seu encontro para o envolver no seu abraço frígido.
Enregelado, estava disposto a erguer-se, prosseguir o calvário da caminhada, quando, assombrado, pressentiu um vulto sentado a seu lado. Sem pinga de sangue, olhos dilatados de espanto, reconheceu logo a figura inconfundível do Menino Jesus da Cartolinha: rosado, a cartola na cabeça, todo aperaltado na sua farpela de cetim bordado a oiro dos dias de festa, um sorriso fraterno desenhado nos lábios infantis.
A um gesto do Menino, o parque animou-se rapidamente. Um grupo de anjos desceu do céu, instalou-se no coreto com um farto instrumental de harpas, cítaras e flautas que encheram a noite com a magia da sua música celestial. Logo de seguida, dois outros anjos, surgidos do frio, desdobraram alva toalha de linho sobre a neve e serviram em silêncio, uma frugal ceia de consoada composta de pão de centeio, salpicão e presunto.
O Menino, sorridente, retirou da algibeira da casaca um belo canivete de cabo de madeira esculpido que ofereceu ao homem.
- Reconheces? É o canivete dos sonhos da tua infância. Podemos começar a cear.
O homem lentamente, num ritual litúrgico, a saborear cada instante, cortou o pão em longas e suculentas fatias, o salpicão em rodelas finas e sumarentas, o presunto em lascas rosadas, com firmeza e uma sabedoria que só podia nascer do fundo da memória ancestral.
Faltava o vinho mas logo da boca do leão do fontanário começou a jorrar um bica-aberta fresco e capitoso que recolhiam na concha das mãos e sorviam deliciados.
Finda a ceia, os anjos recolheram os restos das vitualhas e os instrumentos musicais e evolaram-se, sem ruído, nas profundezas da noite. O Menino Jesus da Cartolinha, um tudo nada mais corado pelos efeitos do vinho, demorou um último olhar nos olhos do homem e preparou-se para partir também.
- O canivete - balbuciou o homem.
A suave mão do Menino aflorou-lhe o ombro.
- É teu. É o teu presente de Natal.
Quando, instantes depois, com passo firme e decidido, o homem regressou ao seu apartamento, com o canivete no fundo da algibeira, era a criança mais feliz do mundo.

Sábado, Dezembro 19, 2009

Os milagres ainda existem


Sábado de Agosto em Portugal. Corria uma bela noite de verão. Quente, sem ponta de vento, convidativa a olhar o mundo com os olhos do coração.
Como acontecia frequentemente, eu e a minha mulher decidimos meter-nos no carro e ir até Fátima. Ela porque adora rezar o terço na Capelinha das Aparições e assistir à procissão das velas. Eu porque gosto de respirar a paz daquele mundo de recolhimento e meditação.
Pelo caminho, no pequeno trajecto de cerca de quinze minutos, movido por forças insondáveis, a meio da conversa, evoquei as noites de verão da minha infância distante. Era então um deslumbramento olhar o céu recamado de estrelas, identificar as constelações , a Ursa Maior, a Ursa Menor, até encontrar a Estrela Polar, a estrela da minha predilecção. Lá estava ela sempre presente, luminosa, fiel companheira de navegantes, exploradores e poetas, a indicar o caminho da salvação, dos sonhos e até mesmo da liberdade.
A sua beleza e simbolismo foram cantados, desde sempre, por poetas e trovadores, em rimas de encanto rutilante:

“Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.”

(António Gedeão)


Eu vi a Estrela Polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a Estrela Polar
Nas costas de Portugal

(Viniciu de Moraes)

Era em tudo isso que eu pensava, com um travo amargo de melancolia na garganta enquanto olhava o céu coberto pelo espesso manto da poluição tecido pela ambição desmedida dos homens atacados pela epidemia dum consumismo desbragado.
Chegados a Fátima, a minha mulher dirigiu-se para a capelinha enquanto eu
fui tomar um café numa das acolhedoras esplanadas repletas de turistas que desfrutavam regaladamenteo conforto da noite. Retemperado, dirigia-me para o encontro marcado junto ao local das promessas, onde, como sempre, ardia a fé de milhares de velas, quando um inesperado apagão deixou o Santuário mergulhado na mais profunda escuridão.
Surpreendido, ergui os olhos e, num deslumbramento, extasiei-me com um inesperado céu coalhado de estrelas, onde não faltava a bela Estrela Polar da minha infância que me sorria fraternalmente e me sussurrava ao ouvido que o milagre acontecera mais uma vez na solidão daqueles ermos.
É imbuido deste espírito repleto de esperança num amanhã melhor que me chegam as notícias do fracasso da Cimeira de Copenhaga. Os dirigentes políticos mundiais, amordaçados por interesses inconciliáveis e inconfessados, falharam mais uma vez nos seus propósitos de estabelecer regras e uma conduta mais exemplar que salve o mundo da destruição.
Como sempre nas encruzilhas do futuro da humanidade, caberá agora aos simples cidadãos, no seu labutar quotidiano, a missão de empunhar o facho da esperança num mundo diferente. Um mundo mais fraterno, guiado pelo amor, avesso a um materialismo insaciável destruidor da alma humana, capaz de reatar os laços com as nascentes mais puras e primordiais da vida.
Impossível? Talves não, os milagres ainda existem. Principalmente nesta época do ano em que as pessoas estão mais propensas para o pão do espírito.

Sábado, Outubro 31, 2009

Sementeiras e colheitas


Quando se semeia, nem sempre a colheita é a esperada. Há sementes mais ousadas que se transviam, que caiem em chãos inesperados e que por lá ficam, como que adormecidas, até ao dia em que, movidas pelo acaso ou por forças desconhecidas, sacodem o torpor e irrompem triunfais em florescências deslumbrantes.
E a sementeira que se julgava perdida para sempre pode-se transformar na mais radiosa promessa de futuro. Assim acontece com as pessoas, na sua luta diária e tantas vezes heróica pela vida. Assim acontece com as comunidades que, como que obedecendo a um instinto misterioso, seguem percursos tantas vezes atribulados mas que parecem obedecer a um traçado bem definido cuja razão escapa ao nosso limitado entendimento.
Para ilustrar e clarificar um pouco este arrazoado, aqui transcrevo dois textos que repesquei na internet e que intencionalmente deixo na língua original para que não se perca pitada da sua comovente sinceridade. Um fala de raízes, o outro de gastronomia. No fundo, ambos falam de nós, das nossas andanças por estas terras, das nossas sementeiras.

Um samedi soir au Portugal…à Montréal

Samedi soir passé après mon magasinage de la journée au centre-ville de Montréal, j'ai arpenté le quartier portugais de Montréal à la recherche de... rien. Juste me promener et profiter de la belle soirée sans trop penser. Je me retrouve donc au coin des rues St-Urbain et Rachel. Il y a là l'église Santa-Cruz de la communauté portugaise de Montréal. Dans le stationnement de celle-ci, une quantité impressionnante de gens danse, chante et s'amuse.
Je suis curieux et je m'avance près des danseurs. Un monsieur me dit bonsoir et je lui demande c'est quoi la fête. Il me répond que c'est le 30 mai et que c'est la fête de l'Esprit-Saint. Il tente de me dire son nom, mais je n'entends pas très bien. Ce n'est pas qu'il parlait un portugais régional, mais étonnamment un très bon français. Je tente aussi de lui dire mon nom, mais même scénario. La musique est forte et le chanteur s'en donne vraiment à coeur joie en portugais. Je décide donc de lui montrer mon permis de conduire. Faut bien que ça serve à quelques choses. Il lit mon nom et s'exclame : "Ah!!! Francisco Rodrigues!!!" Je souris et je lui montre que c'est plutôt Rodrigue. Je lui raconte ce que je sais de mes racines avec le portugais Yves Rodrigues arrivé à Québec en ~1748. Avec un grand sourire en hochant positivement de la tête il me dit : "Tu connais ton histoire, tu fais partie de la famille. Reste au moins jusqu'à 22 h, ils vont nous servir de la bonne bouffe tout à l'heure." Je n'avais pas terminé de le remercier de son invitation que son ami m'invitait à aller danser avec sa fille. Franchement, je regrette encore de ne pas avoir continué mes cours de danse à une autre époque...
Tout ça pour dire que ce peuple n'oublie pas ses racines et encore moins ses traditions. C'est comme le tirage au sort organisé autour d'un bazar. Les "rifas", petits carreaux de papiers roulés qui servent de billets pour ce tirage au sort. Ils sont fabriqués durant l'hiver par les femmes portugaises. Je n'ai pas plus d'info sur le sujet pour l'instant. J'en ai acheté un paquet de 40.
Bref, des gens très chaleureux que je remercie encore de leur accueil et du très bon moment passé en leur compagnie.

CHORIZO PORTUGAIS

Quand j’étais petit, mes parents avaient parmi leurs amis, un couple originaire du Portugal. Ils n’habitaient pas très loin de chez nous, à Chicoutimi. Je me souviens vaguement d’y être allé souper à l’occasion mais je me rappelle surtout de la « saucisse portugaise »; une espèce de saucisson sec relevé qu’ils mangeaient tout simplement ou en le mélangeant pendant la cuisson du poulet. J’étais trop jeune pour savoir que c’était du chorizo. Je ne me souviens même pas d’y avoir goûté à l’époque. J’ai quand même le souvenir de l’odeur, du couteau de monsieur Dalmeida qui tranchait le saucisson froid, de la texture de la viande, des morceaux de gras, de ses gros doigts de débosseleur qui tendaient la tranche à mon père. Je me souviens aussi de la façon dont ces gens s’exprimaient, leur langage coloré, leurs voix tonitruantes qui prenaient de la place comme s’ils étaient constamment en colère. 30 ans plus tard, à Montréal en vacances, alors que j’étais à la recherche d’un resto, je m’étais retrouvé sur St-Laurent. Un restaurant portugais. Un restaurant comme je les aime, sans prétention, avec un bar ou des habitués discutent. Un resto portugais avec des Portugais (c’est con, mais je n’aime pas aller dans un resto marocain ou il n’y a pas de Marocain ou des restos indiens ou n’y a pas d’Indiens). J’y avais mangé un poisson fabuleux, cuit à point… et une entrée de chorizo qui m’avait ramené des effluves de souvenirs. J’avais alors demandé au proprio où l’on pouvait trouver un tel chorizo, il m’avait expliqué que sur Duluth en plein coeur du quartier portugais de Montréal était LA place. Le lendemain, un dimanche, j’avais décidé de m’y rendre et d’en acheter, avant de comprendre que les Portugais ne travaillent pas le dimanche et de m’être rivé le nez sur une épicerie fermée. Quelques mois après, lors d’une autre visite à Montréal, j’y étais retourné et je fus séduit par la convivialité, la même retrouvée qu’au resto. J’avais discuté avec le boucher qui s’interrogeait sur le fait que j’achetais autant de chorizo d’un seul coup. Quand je lui avais dit que je venais du Saguenay, il trouvait ça drôle : il n’achetait que de l’agneau du Saguenay-Lac-Saint-Jean… J’y suis retourné à plusieurs reprises, à toutes mes visites à Montréal finalement, en achetant un peu plus que la dernière fois (pour les amis!) et en y retrouvant le même service. J’adore ce genre de boucherie, avec ses bouchers qui emballent à l’ancienne, au papier, qui écrivent au crayon à mine le prix sur le paquet, ces épiceries qui nous rappellent notre enfance, qui nous ramènent au temps ou le « sans emballage » du commerce existait. À l’ancienne. (…) À mon humble mesure j’ai fait connaître ce chorizo chez moi au Saguenay, je suis devenu un diffuseur (…)

Razão tinha o nosso grande Camões:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.”

Sosseguem pois aqueles que se inquietam pelo futuro da Comunidade Portuguesa. Continuemos tranquilamente a semear. Pois a colheita será farta.

Domingo, Maio 31, 2009

Rei-Poeta Al-Mu'tamid


O Otman telefou-me para me desejar boa-viagem a Portugal. Pressenti-lhe na voz uma ponta de emoção. Saudades do seu querido Marrocos, compreendi.
Porque o Otman é marroquino. Muçulmano praticante. Frequenta assiduamente a mesquita. Estuda o Corão. Não come carne de porco. É abstémio, não toca numa gota de álcool.
Pai de dois filhos, com um terceiro a caminho, uma das suas grandes apreensões é ver as crianças, em contacto com outros mundos e outras culturas, perder a sua identidade ancestral. Apreensão compreensível, até comovedora pelo que revela de apego a valores inestimáveis que se perdem no fundo do tempo e que caracterizam a idiossincrasia dos povos.
Michel Giacometti, italiano apaixonado pelos portugueses, um dos grandes investigadores da música tradicional portuguesa, afirmou: "A consciência da nossa identidade como povo obriga ao conhecimento da nossa cultura rústica - não apenas das suas manifestações vivas, mas também das suas formas periclitantes ou que vivem tão somente na memória dos mais velhos." E ele sabia melhor do que ninguém do que falava.
Em todo o caso, o Otman é um muçulmano tolerante, como a maioria dos muçulmanos. Quando nos encontramos, fala-me com veneração dos profeta Jesus e Abraão. Está-me sempre a relembrar as nossas raízes culturais comuns de povos mediterrânicos. Eu acredito. Principalmente quando nos reunimos para saborear uma boa sardinhada que eu acompanho a golpes de vinho tinto e ele, mais austero, com umas goladas de água.
Certo dia, para o pôr à prova, convidei-o a visitar a magnífica Catedral de Saint-Patrick, situada no “Centre-Ville”. Para meu espanto, mal franqueou o portal da entrada, o Otman descalçou os sapatos. “Nunca entraria calçado num lugar sagrado” justificou-se perante o meu olhar perplexo. Depois, com a maior das tranquilidade, andámos por ali, uma boa hora, a admirar aquelas maravilhas da arte sacra.
Sempre supus que o primeiro rei-poeta do território lusitano fora o D. Dinis. Isto até ao dia em que o Otman me falou do rei-poeta Al-Mu'tamid. Nascido em Beja no ano 1040, passou a maior parte da sua juventude em Silves antes de ser coroado rei de Sevilha. Vitimado por guerra fraticida, acabou por morrer em 1095, desterrado em Aghmat, perto de Marraquexe.
Hoje é reconhecido com um dos maiores poetas árabes da Península Ibérica.
Um dos seus poemas mais celebrados foi dedicado à bela Silves, uma terra que nunca conseguiu esquecer no seu duro desterro. Mas Silves também não o esqueceu, perpetuando a sua memória na magnífica Praça de Al-Mu'tamid, como descobri recentemente.

EVOCAÇÃO DE SILVES

Saúda, por mim, Abu Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o palácio dos Balcões
Da parte de quem nunca os esqueceu.
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas!
Mulheres níveas e morenas
Atravessavam-me a alma
Como brancas espadas
E lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
Lá no remanso do rio,
Nos jogos do amor
Com a da pulseira curva
Igual aos meandros da água
Enquanto o tempo passava...
E me servia de vinho:
O vinho do seu olhar
Às vezes o do seu copo
E outras vezes o da boca.
Tangia cordas de alaúde
E eis que eu estremecia
Como se estivesse ouvindo
Tendões de colos cortados.
Mas retirava o seu manto
Grácil detalhe mostrando:
Era ramo de salgueiro
Que abria o seu botão
Para ostentar a flor.

“É ou não verdade que temos um rico passado cultural comum?” pergunta-me o Otman, orgulhoso, enquanto tira a pele a mais uma sardinha.
Perante os factos, não há argumentos. Nestas ocasiões propícias à conciliação, apetece-me tranquilizar o seu receio quanto ao futuro dos filhos. Apetece-me dizer-lhe que para além das diferenças que distinguem, e tantas vezes dividem, os povos, muito mais importante é o legado universal que nos une e no qual nos reconhecemos todos filhos da mãe-Terra. E ele, estou convicto, amolecido pelo manjar que o mar comum generosamente nos oferta, compreenderá o sentido mais profundo das minhas palavras.

Domingo, Novembro 09, 2008

Elogio da mestiçagem


Todos os povos são mestiços. Todas as culturas são mestiças. Todas as línguas são mestiças. Todos nós somos mestiços.
Basta percorrer, de olhos abertos, as páginas da História para nos apercebermos da realidade, cada vez mais evidente, deste imenso e fascinante laboratório de mestiçagem que sempre foi a Terra.
É talvez por isso que a eleição de Borack Obama como presidente dos EUA está a despertar tanta emoção. Subitamente, Obama transformou-se aos olhos de toda a humanidade no símbolo do homem novo num mundo novo.
Será ele, encarnação de tanta mestiçagem, o passo por acontecer do poeta e escritor luso-moçambicano Mia Couto?

POEMA MESTIÇO

Escrevo Mediterrâneo
na serena voz do Índico
Sangro norte
em coração do sul


Na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo


Hei-de começar
mais tarde

Por ora
sou a pegada
do passo por acontecer

Tal como o sonhou o poeta moçambicano José Craveirinha, será Obama o maestro capaz de encontrar o ritmo certo para que as palavras, que afluem à boca dos homens pelos mais diversos caminhos, se tornem todas irmãs?

A Fraternidade das palavras


O céu
É uma m´benga
Onde todos os braços das mamanas
Repisam os bagos de estrelas.

Amigos:
As palavras mesmo estranhas
Se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo
para serem todas irmãs.


E eis que num espasmo
De harmonia como todas as coisas
Palavras rongas e algarvias ganguissam
Neste satanhoco papel
E recombinam o poema.

m´benga - pote de barro
mamanas - mulheres
ronga – dialecto mais meridional do grupo linguístico banto tsonga. É falado numa pequena área que inclui a cidade do Maputo
gangussam – namoram
satanhoco – uma coisa que não presta

Terá chegado a hora de os homens poderem, orgulhosamente, assumir a sua verdadeira identidade, cidadãos da mesma pátria, a Terra, sem, contudo, excluir ou renegar as suas múltiplas e preciosas pertenças particulares?
Terá chegado a hora de dar alma ao poema de Miguel Torga dentro em breve eternizado no granito dum banco no boulevard Saint-Laurent, a nossa Main ?

Ter um destino é não caber no berço
onde o corpo nasceu,
é transpor as fronteiras uma a uma
e morrer sem nenhuma

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Vem aí uma nova era


“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.”
(...)

Assim falava o génio de Camões. Sempre assim foi, desde que o mundo é mundo. Sempre assim será enquanto a Terra rodar em torno do sol.
As eras sucedem-se umas atrás das outras com o seu inevitável cortejo de transformações.
Estamos a atravessar a longa era dos vampiros. Com as lúgubres capas negras a esvoaçar aos ventos da mudança, cada vez mais grotescos na sua desorientação com o rumo dos acontecimentos que já não conseguem controlar, ainda são os mesmos do poema do José Afonso:

“No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas
(...)

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafad
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada”
(...)

Mas uma nova era está a bater-nos à porta. Virá mais cedo de que muitos esperavam. Há prenúncios encorajantes no ar que respiramos, nos ventos que sopram, nos indícios que nos chegam de todo o lado.
Uma era em que o fulgurante progresso tecnológico dos tempos que correm será finalmente posto ao serviço da prosperidade e do bem-estar de toda a humanidade. A tão apregoada globalização, que até agora foi pretexto para concentrar a riqueza nas mãos de uma oligarquia financeira, rapace e sem escrúpulos, só agora irá realmente começar a dar frutos.
Infelizmente, a travessia do deserto, será longa e dolorosa. Mas depois da tempestade, vira a bonança. Quando passar a tormenta que nos flagela, o mundo será melhor. Balizado por valores mais nobres durante tanto tempo atirados para o sótão das velharias sem préstimo, no sinistro reinado do deus-cifrão.
Por que caminhos lá chegaremos, ninguém o sabe ainda. No meio de tanta incerteza, só a certeza do poeta José Régio :

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
(...)

É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!"